Presidente-executivo da ABIMAPI fala sobre o mercado dos derivados da farinha de trigo

  • 18/10/2018
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  • Categoria(s): Derivados de Trigo |

Esta semana, a AFNews conversou com o presidente-executivo da Associação Brasileira de Biscoitos, Massas e Pães & Bolos Industrializados (ABIMAPI), Cláudio Zanão. A pauta foi um panorama geral sobre a indústria e o mercado atual do setor. Antes de responder às perguntas da agência, o entrevistado explicou um pouco como se forma o preço e de onde vem a matéria prima, o trigo. 

Por Nájia Furlan

Nas palavras do representando da ABIMAPI, “a indústria consome, no Brasil, cerca de 11 milhões de toneladas de trigo por ano. Metade disso, o país produz aqui; a outra metade normalmente vem do Mercosul (Argentina, Uruguai e Paraguai). A Argentina é o grande provedor do Brasil, fornece, em média, 6 milhões de toneladas por ano e produz cerca de 15 milhões de toneladas. Quando a Argentina tem algum problema, seja de clima ou político, e por algum motivo não há trigo na Argentina, nós vamos buscar nos EUA e Canadá. A grande diferença em relação ao Canadá é que teremos um frete muito maior, além da TEC (tarifa externa comum) de 10%. Ou seja, se temos que recorrer a este país, pagamos mais impostos e mais transporte. Então, o ideal é ficar aqui por baixo; apesar de que o preço do trigo fica sempre em dólar. No Brasil, os grandes produtores de trigo são o Paraná e o Rio Grande do Sul, responsáveis por cerca de 90% do fornecimento – depois vem São Paulo, Minas.

No primeiro semestre, temos a entressafra do trigo; quando ainda não temos o produto colhido. Apenas no 2º semestre (agosto/ setembro) a safra brasileira começa a ser colhida e no final (dezembro/ janeiro), vem a safra Argentina. Então, o trigo vai ter na formação de preço duas variáveis – uma a safra; a segunda, o câmbio”.

AFNews - Em geral, como está o mercado interno e externo do setor (pães, massas e biscoitos)?
Cláudio Zanão – No primeiro semestre, nós tivemos problema de safra e câmbio. Então, houve um aumento considerável no preço do trigo, farinha de trigo e, consequentemente, nos produtos derivados (biscoito, macarrão e pão). Para você ter uma ideia, macarrão e pão industrializado (não o pão francês), 60/ 70% do custo é farinha de trigo. Biscoito, 30/40%. Então, você pode notar que a variação do preço da matéria prima vai mexer diretamente com essas três categorias de produtos. O aumento vai depender do estoque que cada indústria tenha e sua estratégia, isso é, a necessidade de formar caixa ou buscar mais participação de mercado, ou ainda outra necessidade que tenha que aumentar o preço rapidamente. Isso pode demorar 30, 60 ou 90 dias para repassar ao consumidor, dependendo da indústria, do porte e da necessidade. Então, no primeiro já houve aumento, e no segundo semestre começamos com problema de câmbio e de safra. A guerra da indústria com o varejo tem sido muito difícil, pois a indústria sabe que tem que repassar preço e o varejo sabe que aumentar preço significa queda no volume de venda. Há sempre uma disputa para tentar preservar o giro. Aumentos houveram, sempre aumentos mínimos; mas se procura passar aos poucos mensais para não assustar o consumidor.

AFNews - Sabemos que o setor deu uma desacelerada. Em que ritmos as indústrias estão trabalhando no momento? Voltou a aquecer? Por que?

Zanão – As nossas três categorias de produto têm penetração. Biscoito e macarrão correspondem a 99,7%, ou seja, basicamente todo brasileiro come um pacote de biscoito ou um pacote de macarrão por ano. Já o pão industrializado, a penetração é de 78% - então é um dado reverso, basicamente 1/5 dos brasileiros não comem um pacote de pão por ano. Então, o pão de forma, antes da crise, vinha num bom ritmo de crescimento (de dois dígitos) ao ano. E com a crise ele foi um dos mais afetados nesses volumes. O ano passado, essas três categorias juntas basicamente perderam 3% de volume. E os valores (arrecadados) se mantiveram os mesmos. Este ano, não está muito diferente. Estamos esperando pelo menos não perder volume e talvez ter um acréscimo de 3 a 5% em valor; o que seria o repasse do custo. Diante dessa crise, a gente considera essas categorias como indo bem, obrigado.

AFNews - Quais as expectativas em relação à nova safra de trigo? No PR, por exemplo, a chuva tem atrasado a colheita e se espera perda na qualidade da produção. A indústria teme algum reflexo? Qual?

Zanão - Sempre tem. Uma coisa que os argentinos têm de bom é trigo, com qualidade e bom preço. Então, o Brasil nunca fica dependente apenas de trigo do Paraná ou Rio Grande do Sul; consome um mix desses outros países. Então, essas quedas na safra são sempre previsíveis; mas você quebra aqui, ganha lá. Então o melhor é segurar o máximo possível que você tem para reajustar para manter seu volume de vendas. Sempre assusta, mas quando isso se concretizar e tiver que haver o repasse, serão repassados.

AFNews - O Natal se aproxima e, com a data, entra em cena um produto bem tradicional, o Panetone. Quais as expectativas em relação à produção, preços e consumo do produto para este ano?

Zanão – O Brasil consome em torno de 39 mil toneladas de Panetone por ano e movimenta R$600 milhões com o produto. Temos um ótimo mercado interno. No ano passado, nós quase aumentamos 13%/ 14% em relação a 2016, em volume e valor. Isso é muito bom, diante dessa crise. É um valor bem expressivo. O que começou há alguns anos, se consolidou no ano passado e vem forte para este ano é o Panetone como presente. No mês passado tivemos o Salão do Panetone, onde vimos a indústria inovando em sabores, tamanho e, principalmente, em embalagens. Nós estamos com boas perspectivas para que este ano consigamos mais um aumento em torno de 10% nesse mercado.

AFNews - Um fator que tem mexido muito, em diversos mercados, é o frete e o tabelamento. Como a Indústria de biscoito, massas e pães tem sentido essa "novidade"?

Zanão – A indústria está se matando por isso. O Frete está valendo e tem que ser aplicado. Se você aplicar, você quebra a empresa porque fica mais caro o transporte que o produto. Então está aquela queda de braço; ações em cima de ações jurídicas tentando segurar isso; o STF ainda não definiu. Você tabelar mercado é a pior coisa do mundo. O Brasil toda hora comete esse erro. Existe a lei da oferta e da procura que se equilibra naturalmente; basta ajustar de um lado e do outro. Mas temos a mania, no nosso país, de tentar toda hora fazer uma lei para segurar essa balança; o que é impossível. Essa tabela é absurda e a indústria está tentando segurar o quanto pode, pois se isso vier para ficar em 2019, vai ser mais um fator para derrubar nosso PIB, nosso crescimento.

AFNews - Estamos em vésperas de segundo turno. O futuro político do país preocupa o setor? Por que?

Zanão – O nosso futuro político preocupa a todos, como um bom brasileiro, o setor também se preocupa. Os extremos são ruins, sempre foram. Porém, o que temos visto é que o mercado tem reagido bem com a possibilidade da extrema direita dominar as eleições. Então, talvez tenhamos experimentado a extrema esquerda, não tenhamos gostado; agora vamos para o outro lado já que é a única opção disponível neste momento. Esperamos que as previsões se concretizem, as que o mercado que está demonstrando: de queda de dólar, situações melhores para todos nós.

AFNews - Quais as expectativas em relação ao mercado até o final do ano? O que se espera, qual a tendência?

Zanão – Não vejo muitas mudanças até o final deste ano. Tivemos um 2017 ruim; entramos muito otimistas em 2018, que foi muito ruim. Mas o brasileiro é otimistas, estamos esperando melhoras. Pode ser que tenhamos boas novidades.

AFNews - Quais os desafios atuais da indústria do ramo?

Zanão – A indústria está sempre na vanguarda. O consumidor é que manda. Ele exigiu um produto mais leve, mais light, mais natural e a indústria está sempre reagindo. A indústria está reduzindo a gordura trans, reduziu o sódio. A indústria agora fez um acordo – que deve ser assinado em breve – sobre a redução do açúcar também. Então, estamos sempre tentando superar as expectativas do consumidor, dar a ele novos produtos, novos sabores, novas embalagens, novos formatos. Isso é o que faz a indústria se movimentar e sempre tentar conseguir algo mais. Estamos muito otimistas para 2019 também!
Confira entrevista exclusiva com o presidente-executivo da Associação Brasileira de Biscoitos, Massas e Pães & Bolos Industrializados (ABIMAPI), Cláudio Zanão.


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