Ponto de Vista: pesquisadora do Cepea fala sobre cenário do mercado de trabalho ligado à vocação natural do país, o agronegócio

  • 18/11/2019
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  • Categoria(s): Notí­cias Populares |

Dra. Nicole Rennó, pesquisadora do Cepea

Um dos pilares de sustentação da economia brasileira é o agronegócio, vocação natural do país e de milhões de brasileiros, que se dedicam profissionalmente ao campo. Tanto é verdade que o número de pessoas ocupadas (PO) no agronegócio brasileiro somou 18,37 milhões no segundo trimestre deste ano, 1,64% a mais que no trimestre anterior, de acordo com pesquisas realizadas pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), da Esalq/USP, em parceria com a Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz).  

O agronegócio representa 20% do Produto Interno Bruto (PIB). É um setor que necessita cada vez mais de mão de obra qualificada para superar os desafios que são tão grandes quanto o próprio tamanho da agropecuária nacional. Por isso, a AFNews Agrícola convidou para o “Ponto de Vista” desta semana a doutora Nicole Rennó, pesquisadora da área de Macro, que integra a equipe  Cepea/Esalq,  unidade da USP,  referência em estudos e pesquisas, para responder algumas questões pertinentes ao tema: Mercado de Trabalho no Agronegócio.

 

AFNews -  Como é dividido o mercado de trabalho no agronegócio e quais são os pilares que sustentam cada segmento relacionado às atividades no campo?

Pesquisadora/Cepea -  Atualmente, o principal pilar do mercado de trabalho no que diz respeito ao número de pessoas ocupadas ainda é a agropecuária ou segmento primário do setor, ou ainda, o trabalho “dentro da porteira”. Em 2019, por enquanto, 46% das pessoas ocupadas no agronegócio trabalhavam no campo (agropecuária), equivalente a 8,3 milhões de pessoas. Mas, os demais segmentos do agronegócio também detêm peso relevante: os agrosserviços responderam por 32% e as agroindústrias (de insumos e processamento), por 22% das ocupações. Na agropecuária, em 2019, 64% das pessoas se ocupam em atividades da agricultura e 36% em atividades da pecuária. Na agricultura, as produções de cereais, da horticultura e de café são as mais relevantes em número de pessoas ocupadas, com por volta de 500 mil pessoas cada. Na pecuária, destaca-se a bovinocultura (de corte e leite), que contou com mais de 2 milhões de ocupados (todas as informações são compiladas pelo Cepea com base na PNAD-Contínua, do IBGE).

AFNews - Segundo dados de um estudo realizado pelo Cepea/Esalq, entre 2012 e 2018, o número de ocupados em atividades agropecuárias decresceu 17,4%, ou seja, algo em torno de -1,8 milhões de pessoas. Os mercados de trabalho agrícola e rural passaram por relevantes transformações neste período, em que pese essas mudanças quais foram as mais significativas para o índice decrescente?

Pesquisadora/Cepea -  Essa tendência de redução no número de pessoas atuando em atividades agropecuárias não é nova, e vem marcando o setor há muitos anos, com maior ou menor intensidade em cada período. Para esse período analisado pelo Cepea, o principal fator parece ser uma continuidade do processo de mudança que tem marcado a forma de produção da agropecuária, com uma intensiva modernização que, ao passo que favorece os importantes ganhos de produtividade que o setor tem alcançado, implica em redução no número de empregos. Além de haver uma substituição de trabalho por capital no campo, esse processo também acaba implicando em intensificação e concentração da produção, em detrimento a estabelecimentos menores (aqueles que não conseguem competir no ambiente atual de alta concorrência). Entre 2012 e 2018, a redução do número de pessoas ocupadas na agropecuária se deu sobretudo na agricultura, concentrada principalmente em dois grupos de produtos: i) cereais (arroz, milho e outros) e “outras lavouras” (que inclui a produção de banana, abacaxi, melancia, melão, mandioca, feijão, batata, cebola, entre outras atividades de menores).

AFNews - O que pode estar por trás da decisão de um residente rural de se engajar no mercado de trabalho não agrícola?

Pesquisadora/Cepea - Por um lado, mais “positivo”, existem os chamados fatores de atração. Isso ocorre quando o residente rural percebe uma oportunidade de obter rendimentos maiores fora da agropecuária, e por isso toma a decisão. Isso vai depender tanto das oportunidades de empregos fora da agropecuária nas proximidades da residência quanto das características desse trabalhador. Para que boas oportunidades existam, deve haver algum dinamismo na economia local. Ressalta-se que um aquecimento do mercado de trabalho local pode inclusive ser impulsionado pela própria agropecuária – quando essa se desenvolve, pode implicar na atração de agroindústrias e em maior dinamismo do setor de serviços para atender à economia local. Mas, não basta existir a oportunidade de emprego. O residente rural deve ter características que o permitam se engajar nessas atividades, ou o nível de qualificação adequado. Por outro lado, mais “negativo”, tem-se os fatores de pressão ou expulsão. O residente rural pode precisar buscar uma alternativa fora da agropecuária caso tenha dificuldades de se manter na atividade agrícola. Isso pode ocorrer quando as mudanças na agropecuária extinguem oportunidades de trabalho e/ou reduzem os rendimentos a ponto de se tornarem insuficientes para manutenção da família.

AFNews - “A Marcha para o Oeste” transformou a região centro-oeste em um importante polo do agronegócio brasileiro, principalmente devido aos fluxos migratórios em décadas passadas. Atualmente, qual é a real situação do ponto de vista político-econômico?

Pesquisadora/Cepea -  Atualmente, a região é importante expoente do agronegócio. Em 2017, 26,3% do valor da produção agrícola brasileira veio da região (PAM – IBGE). E o dinamismo da agropecuária naturalmente se transborda, e traz consigo o desenvolvimento também de indústrias e do setor de serviços, gerando oportunidade de emprego e renda na região.

AFNews - Qual região do país vai na contramão das estatísticas de desaceleração do mercado de trabalho no agronegócio?

Pesquisadora/Cepea - No contexto do comentado na pergunta anterior, a região Centro-Oeste tem demonstrado tendência oposta à média brasileira no que diz respeito ao mercado de trabalho. Isso também foi constatado em um estudo divulgado pelo Cepea. Nesse estudo, nós verificamos que a população ocupada no agronegócio dessa região aumentou 11,20% entre 2012 e 2018, no mesmo período em que o número de ocupados no agronegócio do Brasil reduziu 7,02%. Além dessa tendência, contrária à do Brasil, é interessante mencionar que na região Centro-Oeste está o maior salário/rendimento médio do agronegócio (comparado aos valores médios das demais regiões).

AFNews - Neste ano, uma estatística chamou a atenção ao constatar que o agronegócio é responsável por quase 20% da população empregada no Brasil. Esse percentual condiz com a realidade?

Pesquisadora/Cepea - É bastante condizente. Além de representar também 20% do PIB brasileiro (conforme dados do Cepea), o agronegócio ainda é um setor que utiliza muita mão-de-obra. E, embora o número de pessoas trabalhando no segmento primário (ou agropecuário) do agronegócio esteja em redução, como a produção do setor tem crescido consistentemente, empregos passam a ser gerados nas agroindústrias e nos diversos serviços também relacionados ao agro (como transporte, comercialização, armazenagem, entre outros).

AFNews - Com o uso da tecnologia no campo, as porteiras do mercado de trabalho se abriram ou fecharam para quem vive do agronegócio? Quais as perspectivas em curto e médio prazo com a Inteligência artificial crescendo no campo?

Pesquisadora/Cepea - Esse avanço tecnológico deve continuar implicando em redução ou extinção de vagas de trabalho na agropecuária. Mas, ao mesmo tempo, surgem oportunidades para uma mão-de-obra mais qualificada no segmento – isso também é uma tendência. No balanço, provavelmente mais empregos são perdidos do que gerados com esse processo. Mas, a qualidade dos empregos e os salários aumentam. A despeito da redução dos empregos, o avanço tecnológico no campo traz muitos benefícios. Mas, atenção deve ser dada ao trabalhador que não mais se encontra na agropecuária e que muitas vezes, por ter um nível limitado de qualificação, vai enfrentar dificuldades em se realocar no mercado de trabalho.

AFNews - O mercado de trabalho do agro reduziu os empregos, mas em contrapartida oferece vagas mais qualificadas. Sob o “Ponto de Vista” estatístico, o que explica esse comportamento?  

Pesquisadora/Cepea - Esse ponto já foi um pouco comentado, mas valem umas colocações adicionais. Esse aumento no nível médio de qualificação do agronegócio reflete vários fatores, como i) o próprio aumento da qualificação do brasileiro de um modo geral, ii) uma mudança na distribuição dos empregos entre os segmentos do agronegócio, com redução relativa de importância do número de empregos na agropecuária (tipicamente de menor qualificação) e aumento relativo de empregos em atividades industriais e de serviços; e, naturalmente, iii) o surgimento de oportunidades de emprego mais qualificado no campo diante do processo de modernização e profissionalização da produção.   

AFNews - Ao longo das últimas décadas, diversas transformações estruturais em sociedade resultaram no aumento da participação da mulher no mercado de trabalho do agro. Qual tem sido a taxa de participação feminina no agronegócio? Em que segmento do agro a atuação das mulheres é mais consistente?

Pesquisadora/Cepea - Um estudo especial do Cepea mostrou que essa participação feminina no agronegócio aumentou entre 2004 e 2015. Nesse período, o número de homens atuando no setor reduziu 11,6%, enquanto o número de mulheres aumentou 8,3%. Com isso, a participação da mulher nas ocupações do setor passou de 24,1% para 28%. Essa participação ainda é relativamente baixa, em comparação com o mercado de trabalho brasileiro como um todo – em que era de 40% em 2015. Segundo o acompanhamento trimestral que o Cepea faz sistematicamente do mercado de trabalho do agronegócio, não houve mudança importante nessa taxa de 2015 para frente. Considerando 2018, a participação da mulher era maior na agroindústria (37,5%) e nos agrosserviços (42,3%). Focando na agropecuária, as mulheres estão mais presentes nas atividades de fumo, horticultura, flores e produção de aves; ao contrário, a participação feminina é bem reduzida em atividades como cana-de-açúcar, algodão e soja.

AFNews - Qual a tendência do mercado do agro para o ano de 2020?

Pesquisadora/Cepea - A princípio, não se espera uma mudança na tendência de redução do número de pessoas trabalhando na agropecuária – esse número deve se manter em redução gradual. Diferentemente do que se observa na agropecuária, na agroindústria, os movimentos da produção e dos empregos são mais conectados. Em 2019, esse segmento ainda sofreu com a economia brasileira pouco aquecida, principalmente as indústrias mais dependentes do mercado interno (e a produção ficou estagnada ou em queda). Se o crescimento econômico acelerar um pouco em 2020, como é previsto, o cenário para essas agroindústrias deve melhorar. Esse ponto, somado ao bom desempenho esperado das exportações para carnes, por exemplo, deve configurar-se em uma retomada da produção agroindustrial no país com possíveis impactos positivos sobre o número de empregos.

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