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Última atualização: 14/11/2017 - Atualizado em 02/10/2013h46

Trigo russo é o novo vilão da triticultura brasileira?

O trigo russo é uma ameaça ao mercado brasileiro de trigo?

De AF News Análises

Por Gabriel Ferreira

 

Desde ontem, grande número de comentários nas redes sociais e mesmo notícias na imprensa apontando para a questão de abertura do mercado brasileiro para o trigo russo, da flexibilização do ministério para a entrada de “pragas”, competição do produto russo com o produtor nacional no momento da colheita, enfim, vários são os argumentos para tamanha polêmica. Mas afinal, tudo isso se justifica? O trigo russo é mesmo uma ameaça real à sanidade das lavouras do Sul do país? Está sendo ameaçado o produtor brasileiro? Bom senso é o remédio nesta discussão.

Primeiro de tudo, conferimos ontem (13/11) e hoje (14/11) e nada de alterações na legislação que regula a entrada do trigo russo no Brasil ainda. Nada em diário oficial. Então obviamente a polêmica se justifica, como defesa dos interesses dos produtores, visando impedir que se altere a Instrução Normativa n. 22/2015 do Mapa, que já era uma alteração da primeira instrução normativa do assunto, que datava do ano de 2009.

Mas o que a legislação mais atual dizia? Verificamos comentários na imprensa falando em entrada de “pragas”, quando na verdade a íntegra da IN quanto às restrições eram quanto às seguintes plantas daninhas e fungos (que não tem ocorrência somente restrita à Rússia):

 

“Art2º  item II - DA5: o local de produção de grãos de trigo foi submetido à inspeção oficial durante o ciclo da cultura e não foram detectadas as plantas daninhas Orobanche spp. e Cirsium arvense; e

 III - DA15: os grãos de trigo encontram-se livres dos nematóides Anguina tritici, Ditylenchus destructor e Heterodera avenae; dos fungos Tilletia laevis, Urocystis agropyri e Ceratobasidium cereale; das plantas daninhas Orobanche spp., Cirsium arvense, Acroptilon repens, Alopecurus myosuroides, Amaranthus blitoides, Centaurea difusa, Euphorbia helioscopia, Heliotropium europaeum, Lolium rigidum, Hibiscus trionum, Polygonum scabrum, Setaria pumila e Sonchus arvensis, de acordo com o resultado da análise oficial em laboratório nº ( )...”

Outra trava na legislação atual é aquela imposta à entrada nas regiões produtoras, com o art 5º barrando a entrada do trigo russo aos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ora, se temos o risco de introdução de pragas quarentenárias, nada mais justo do que impedir a entrada em Estados produtores, sendo estes concentrados na Região Sul. Essa é uma reclamação interessante.

Mas saindo da parte técnica e burocrática, vamos aos fatos de mercado. Afinal o governo no Brasil não compra trigo, logo o governo pode abrir a importação, cota isenta de TEC, flexibilizar a entrada em regiões produtoras, mas ainda assim alguém precisa querer comprar este trigo! É ai que esta polêmica se esvazia, e perde totalmente o sentido. Devemos observar os seguintes pontos:

1)      Argentina: Esperada safra cheia na Argentina, com preços competitivos até no Norte da África. Projeta-se colheita entre 16 a 17,5 milhões de toneladas na safra nova argentina, isso traria um excedente exportável mínimo de 9 milhões de toneladas de trigo, fora o excedente da safra atual, mais do que suficiente para atender a demanda brasileira mesmo com vendas para fora do país.

2)      Demanda dos moinhos: O trigo russo é desconhecido aos moinhos brasileiros, antes de qualquer mudança de legislação os moinhos teriam de conhecer o trigo russo (testando) para querer compra-lo. Não se tem ideia de quais farinhas poderiam ser produzidas a partir do trigo daquela origem, isso de cara exigiria o trigo russo trabalhar abaixo da paridade com o trigo argentino (e com o nacional) para ser demandado por moinhos brasileiros das regiões produtoras.

3)      TEC: Na última semana, justamente atendendo uma demanda dos políticos brasileiros que querem abrir mercados ao redor do mundo foi pedida a discussão de abertura de cota isenta de Tarifa Externa Comum (TEC) para origens de fora do Mercosul (10% atualmente), que não foi sequer discutida, por conta da interferência de governantes argentinos. Este não é o momento de abertura, na colheita nacional e no início da colheita argentina.

4)      Preço nos portos: Conversamos com agentes de mercado na Rússia e Ucrânia, a conta não fecha. Trigo argentino 11,5% de proteína cotado a US$ 189/ton (trigo + frete) entrega em Paranaguá-PR dez/17, trigo russo US$ 192/ton (FOB); e com trigo + frete + TEC fechando em US$ 235/ton no mínimo (com TEC) ou ainda US$ 216/ton (sem TEC, caso venha a ser discutida). Acho que poderíamos acabar aqui a discussão, e deixar o nosso governo e ministério fazer política abrindo o quer que for e incentivar vendas de carnes, etc mas...

5)      Sazonalidade normal de preços: Argentina está no início da colheita, tendência normal é que seus preços se mantenham em queda nos próximos dois meses, daí em diante dependendo do tamanho da colheita e do ritmo de vendas, elevando-se lentamente. Na Rússia a colheita foi iniciada em julho/17, até maio ou junho não há tendência de redução de preços naquela origem, logo nem mesmo a retirada de TEC melhoraria esta condição.

6)      Paridade de importação no interior: A comparação com os preços nacionais neste momento no Rio Grande do Sul (lotes a R$ 550/ton FOB interior) e Paraná (R$ 640/ton FOB interior máximo) não deixa a menor dúvida. Com o dólar hoje partiríamos de US$166 a 193/ton em ambos os estados, logo, com exceção à alguma predileção pela qualidade e homogeneidade do trigo argentino que justificam as compras até a preços superiores aos nacionais (que não existe no trigo russo) , não teríamos demanda por parte de moinhos do interior.

 CONCLUSÃO

Então para resumir, o trigo russo está liberado desde 2009 para compras em moinhos do litoral do Brasil, neste período já passamos por escassez de oferta argentina no período Cristina Kirchner, perdas no trigo americano, e ainda assim não se verificou qualquer compra de trigo russo nem mesmo na Região Nordeste, onde a questão de disputa por fretes seria menos desfavorável na competição com o trigo argentino.

Isso passa pelo total desconhecimento com relação à qualidade industrial deste trigo por parte dos moinhos, que tem na Argentina, Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Polônia e França possíveis fornecedores de trigo importado este ano. A comprensão de fatores como tempo de umidificação antes da moagem (para maior extração e qualidade da farinha), a regulagem do banco de cilindros durante a moagem, o comportamento das farinhas resultantes nas massas necessárias às indústrias brasileiras, tudo isso demanda tempo para teste. Logo, não será neste ano safra de menor oferta nacional que todas estas dúvidas serem sanadas.  Ou tempo para reverter o padrão de preços argentinos mais competitivos, justificando moinhos do interior da Região Sul buscar trigo russo.

Outro ponto, com vendas cada vez maiores de trigo russo para países do Hemisfério Norte (hospedeiros das espécies restritas pela nossa legislação) e também do hemisfério Sul (em risco como o Brasil), não temos uma limitação das compras de trigo russo pela questão fitossanitária. Aliás muito pelo contrário. Países tradicionais clientes do trigo argentino como a África do Sul, e a Índia (cliente do trigo australiano) compram hoje grandes volumes de trigo russo sem problemas às suas lavouras locais.

Logo, por hora, deixem o ministro trabalhar fazendo política. Deixem que os técnicos do ministério façam valer a legislação quarentenária (que é maior do que qualquer acordo comercial) somente quando for necessário (quando o trigo russo estiver competitivo no interior do país, se chegar a ser), e sigamos preocupados com as questões de comercialização entre produtores gaúchos, catarinenses e paranaense com os moinhos locais.
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