DERIVADOS DE TRIGO
O segundo dia de palestras e debates acerca da cadeia do trigo trouxe hoje alguns desafios futuros para as indústrias e moinhos, através de exposição do presidente da Bunge do Brasil Pedro Pullen Parente, vamos às principais colocações do palestrante, comentários dos demais presentes e nossas conversas sobre o tema.
Foram enumerados pelo expositor 6 princípios básicos para questionamento e modificações por parte da cadeia moageira e indústrias do setor, seriam eles: Sustentabilidade; Conveniência; Saudabilidade; inovação; base da pirâmide e indulgência.
Dentre os aspectos que não foram levantados no nosso comentário de ontem, retiramos a inovação e sustentabilidade. A primeira tem a ver com a intensa competição por mercado, em que idéias novas criam diferenciais e conquistam fatias de consumidores importantes. Para tanto, porém seria necessária uma cultura de inovação, algo que não é simples, dada a estrutura das indústrias moageiras nacionais. Um dos presentes comentou a importância de associação com as universidades, como uma boa saída para encontrar novas soluções. Diante de um aumento de investimento do governo federal em pesquisa, cabe a indústria expor suas demandas, seja em aprimoramento de moagem, novos produtos, otimização de processos ou o que for o fato é que muitas cadeias como minérios, e energias tem parceria constante com o ensino em todo o mundo e por isso se desenvolvem no longo prazo.
A questão da sustentabilidade exposta pelo palestrante, dizia respeito ao comportamento do consumidor atual em preservar o ambiente e aumento da consciência ecológica, logo ter uma linha com embalagem retornável ou biodegrável torna a cadeia e as marcas mais “bem vistas” do ponto de vista de consumidores mais conscientes, há atualmente uma programação de entrada em vigência da responsabilidade das indústrias em relação ao destino das embalagens.
A saudabilidade, algo já bastante comentado no dia de ontem, foi tema novamente com o expositor levantando a responsabilidade das indústrias e moinhos em mudar conceitos, algo semelhante com o que vem ocorrendo no mercado de pães industrializados que tem um acordo de redução de sódio de 10% ao ano, até o nível ótimo. Uma das pessoas presentes, porém questionou a viabilidade destas propostas de produção de integrais ou algo do tipo, haja vista que as tecnologias mais novas de plantas de moagem visam cada vez mais “purificar a farinha produzida”.
Os comentários que se seguiram são de que se está em um início de caminho, logo a demanda por estes produtos ainda é pequena, necessitando-se ampliar propaganda e oferta para que mais moinhos venham a aderir este nicho de farinhas integrais. Nós da AF News, em conversa com agentes de mercado, levantamos que seria necessário alguns processos como moagem em pedra, para viabilizar a farinha integral, sendo que alguns de nossos moinhos já negociam este tipo de farinha, este mesmo agente afirma que há diferenciação entre farinha integral, e adição de farelo à farinha, algo já feito atualmente.
Em outras discussões, um caráter em comum é a necessidade de cooperação na cadeia, algo que já vemos em modelos isolados, entre produtores; moinhos, indústrias, universidades, sindicatos e associações, uma vez que mesmo apoios políticos e soluções para o setor se tornam mais fáceis quando há uma confluência de interesses ou ao menos um entendimento entre os diversos elos da cadeia.
TRIGO NACIONAL
Os assuntos levantados com relação à produção de trigo foram os entraves da cadeia e os esforços e as realizações dos produtores e dos órgãos associativos em prol da melhoria da qualidade nos últimos tempos, falou-se ontem também sobre a intervenção do governo na comercialização.
Foi conversado sobre o potencial produtivo de trigo do Rio Grande do Sul, que teria 6 milhões de hectares disponíveis ao uso no inverno, porém não há atualmente no país mercado para todo o potencial de trigo produzido, o dirigente da FARSUL Hamilton Jardim, afirma estar em curso, convênio com órgãos de pesquisa para definir padrões regionais de cultivares, isso dentro das necessidades da indústria moageira, atualmente ainda há 57 cultivares recomendadas ao plantio no Rio Grande do Sul. Aquilo que comentamos em nossa seção de entrevista, é confirmado pelo dirigente gaúcho, que afirma que de 60% da produção concentrada no plantio de cultivares de trigo brando, atualmente 91% da área tritícola no estado seria semeada com materiais de tipo pão. Espera-se no Estado também uma modificação do padrão de exportação de trigo de qualidade ruim por meio desta regionalização das cultivares, mais adaptada dentro de cada uma das regiões produtoras.
O representante dos triticultores paranaenses Ivo Carlos Arnt Filho, mostrou aos presentes a visão dos produtores do Estado, que tem no maior número de alternativas de culturas no inverno um grande entrave à produção. Dentre as possíveis soluções, comentou-se sobre a estagnação de contratos de menção de compra entre moinhos e produtores, a intenção também de uma maior pesquisa de regionalização da produção (cultivares mais adaptadas a cada região). O problema de redução de área seria também uma função de falta de rentabilidade. Tanto este representante quanto o do Rio Grande do Sul, solicitaram apoio do governo.
Este apoio que é tão esperado pelos produtores, na palestra de ontem sobre políticas públicas ao trigo não ficaram claras as modalidades a serem empregadas e a época de realização, com afirmações de que se aguardassem as próximas semanas, o governo não parece estar disposto a escoar trigo de boa qualidade a troca de importar o necessário no futuro, o trigo sem qualidade produzido em partes do Paraná este ano, teria maior necessidade de auxílio pela ausência de compradores. Os agentes do mercado moageiro consultados por AF News dividem-se quanto à concordância ou não da intervenção do governo na comercialização.
Foi firmado hoje um acordo entre a Mesa de Grãos do Uruguai e ABITRIGO acerca da padronização da produção e exportação do trigo uruguaio segundo as necessidades dos moinhos nacionais.
TRIGO MERCOSUL
Hoje pela manhã, o representante do ministério da argentina, trouxe alguns comentários interessantes sobre a produção de trigo argentina.
Com dados consolidados até setembro, o dirigente levanta que o Brasil é o destino de pouco mais de 55% das exportações argentinas e 70% da farinha exportada naquele país, isso mostra a importância do mercado nacional aos nossos vizinhos. Em números totais até setembro a Argentina já havia exportado 6,4 milhões de toneladas de trigo e 675 milhões de toneladas de farinha. Destaca-se dentre os destinos alternativos do trigo do nosso país vizinho a África do Sul e países norte - africanos.
Falando sobre o balanço de oferta e demanda, e desta vez sem comentar números oficiais, o dirigente afirmou crer que cerca de 2 milhões de toneladas não teriam sido declaradas na safra passada, o que traria a produção argentina de 2010 próxima aos 17 milhões de toneladas. Segundo este agente de mercado, com uma produção deste montante seria possível liberar até 9 milhões de toneladas para exportação contra as 7,85 milhões de toneladas.
Falando na safra atual (2011), o palestrante revela que ainda não é possível estimar com precisão um valor de produção, uma vez que no final de novembro comumente só 11% da produção argentina é colhida, e atualmente há muitos cultivos em fase de floração. A grande esperança de incremento de produção na zona núcleo onde se aplica maior tecnologia nos cultivos. O dirigente afirma ser plausível, porém uma projeção de 13 milhões de toneladas, o que estaria na média de rendimento dos últimos anos para uma área de 4,5 milhões de hectares.
Questionado por um dos presentes, o dirigente argentino revela que das 6,2 milhões de toneladas destinadas à moagem, cerca de 1,3 milhões de toneladas seriam destinadas às vendas ao exterior, isso passando-se para um rendimento teórico de 75% de trigo em farinha seria o equivalente a 975 mil toneladas.
O trigo uruguaio também foi comentado por Gonzalo Souto, representante do ministério da agricultura uruguaio, mostrando que houve bom aumento de plantio nesta safra entre um máximo e mínimo entre 540 e 600 mil hectares, assim sendo a produção ficaria entre 1,7 e 1,9 milhões de toneladas, o que com um consumo interno fixo em torno de 400 mil toneladas há alguns anos, resultaria em um saldo exportável entre 1,3 e 1,5 milhões de toneladas, mais 100 mil toneladas de estoque de passagem, o Brasil é o maior comprador de trigo daquele país. Com a assinatura de um convênio de padronização da oferta de trigo do Uruguai com as características desejadas pelo mercado moageiro brasileiro, entre a ABITRIGO e a Mesa de Grãos Uruguaia espera-se uma maior interação com vendedores deste país, o que em conversas da AF News com traders locais não tem sido concretizadas, sem bids há alguns meses.